"Aquilo é o Todo, isto é o Todo. O Todo surge do Todo. Quando tiramos o Todo do Todo, o Todo permanece." Upanishads
10 de outubro de 2016
4 de maio de 2016
21 de novembro de 2013
E a verdade está ali onde o homem nunca olha.
Não se pode encontrar Deus; não há caminho para Ele. O homem inventou muitos caminhos, muitas religiões, muitas crenças, salvadores e instrutores, que ele pensa que o ajudarão a encontrar a felicidade duradoura. O lamentável da busca é que ela conduz a uma certa fantasia mental, uma certa visão que a mente projetou e mediu pelas coisas conhecidas. O amor que ele busca é destruído por sua maneira de vida. Não se pode ter uma arma em uma mão e Deus na outra. Deus é apenas um símbolo, uma palavra que, com efeito, perdeu sua significação, porque as igrejas e os lugares de devoção a destruíram.
Naturalmente, se você não acredita em Deus, você é igual ao crente; ambos sofrem e passam pelo sofrimento de uma vida curta e vã; e as amarguras de cada dia tornam a vida uma coisa sem significação.
A realidade não se encontra no fim da corrente do pensamento, e o coração vazio se enche com palavras do pensamento. Tornamo-nos muito espertos, inventando novas filosofias, e depois existe a amargura do fracasso delas. Inventamos teorias de como alcançar a realidade final, e o devoto vai ao templo e se perde no meio das imaginações de sua própria mente.
O monge e o santo não encontram aquela realidade, porque ambos pertencem a uma tradição, a uma cultura que os aceita como santos e monges.
O pássaro voa, a beleza da montanha de nuvens paira sobre a terra - e a verdade está ali onde o homem nunca olha.
J. Krishnamurti - A única revolução.
13 de novembro de 2013
O pensar separativo que sustenta o ego.
O que temos discutido nas últimas semanas é a questão do "eu" e suas tendências.
Chegamos a perceber que o "eu" é a causa fundamental de todos os males? O "eu"
com todas as suas extravagâncias e ações sutis é o responsável por todos os males.
Todo homem inteligente deve resolver esse problema do "eu", em vez de procurar
contrabalançá-lo, encobri-lo: deve compreender como, na vida cotidiana, está
sustentando, vitalizando e dando continuidade ao "eu". Se desejamos resolver
qualquer um dos problemas mundiais, cumpre-nos, de certo, compreender todo o
processo do "eu", com todas as suas complexidades, tanto conscientes como
inconscientes.
A religião organizada, a crença organizada e os estados totalitários são muito
semelhantes, visto que têm o mesmo intuito de destruir o indivíduo pela compulsão,
pela propaganda, por várias formas de coerção. A religião organizada faz a mesma
coisa, embora de maneira diferente, e por ela sois também obrigados a crer, a aceitar,
sois também condicionados. A tendência geral, tanto da esquerda como das chamadas
organizações espirituais, é moldar a mente segundo determinado padrão de conduta;
porque o indivíduo, quando entregue a si mesmo, se torna um rebelde. Por isso,
destrói-se o indivíduo, pela compulsão, pela propaganda: é ele controlado, dominado,
a bem da sociedade, do estado, etc. As chamadas organizações religiosas fazem a
mesma coisa, com a diferença apenas de que o fazem um pouco mais
disfarçadamente, um pouco mais sutilmente. Porque, também lá, os indivíduos devem
crer, devem reprimir, devem controlar, etc., etc. Todo o processo visa a dominar o
"eu", de uma ou de outra maneira. Pela compulsão, busca-se promover a ação
coletiva. É esse o alvo da maioria das organizações, quer econômicas, quer religiosas.
Querem ação coletiva, o que significa que o indivíduo deve ser destruído; em última
análise, só pode significar isso. Aceitais a esquerda, a teoria marxista, ou as doutrinas
hinduístas, budistas ou cristãs; e por essa maneira esperais promover ação coletiva.
Sem dúvida, cooperação é coisa muito diferente de coerção.
Como se promove a ação coletiva, ou, como deve ser promovida? Até agora ela tem
sido promovida pela crença, pela promessa econômica de um estado de prosperidade,
pela promessa de um futuro brilhante; ou o tem sido pelo chamado método espiritual,
pelo medo, pela compulsão, e por várias formas de recompensa. Não ocorre
cooperação só quando existe inteligência não coletiva, nem coletiva, nem individual?
Para estudarmos o problema com proveito, deveis descobrir qual a função da mente.
Que entendemos por "mente"?
(...) Ao observardes a vossa própria mente, estais observando não apenas os
chamados níveis superiores da mente, mas também o inconsciente: estais vendo o que
a mente realmente faz. Não é assim? Essa é a única maneira em que se pode
investigar. Não deveis sobrepor (ao que a mente faz) o que ela deveria fazer, como
deve pensar ou como deve agir, etc. — pois isso redundaria em fazer meras
afirmativas. Isto é, se dizeis que a mente deve ser isto ou que não deve ser aquilo,
pondes fim a toda investigação e a todo o pensar; e também, se citais alguma
autoridade, parais de pensar. Não é verdade? Se citais Sankara, Buda, Cristo ou XYZ,
pondes ponto final à busca, ao pensar, à investigação. Assim, devemos precaver-nos a
esse respeito. Deveis colocar de lado toda essas sutilezas da mente e saber que estais
investigando, este problema do "eu".
Qual a função da mente? Para a descobrir precisais saber o que a mente está, na
realidade, fazendo. Que faz a vossa mente? Ela é todo um processo de pensamento,
não é verdade?
De outra maneira, a mente não existe. Quando a mente não está pensando, consciente
ou inconscientemente, quando não está verbalizando, não existe consciência.
Cumpre-nos averiguar o que a mente faz — tanto a mente de que nos servimos em
nossa vida diária, como a mente de que a maioria de nós não está consciente —
cumpre-nos averiguar o que a mente faz com relação aos nossos problemas. Devemos
examinar a mente, tal como ela é, e não como deveria ser.
Pois bem, que é a mente, quando em funcionamento? Ela, de fato, é um processo de
isolamento, não achais? Fundamentalmente, é isso o que ela é. É isso que constitui o
processo do pensamento, — pensar de maneira isolada, embora permanecendo
coletiva. Observando o vosso próprio pensar, vereis que ele é um processo isolado,
fragmentário. Estais pensando em conformidade com vossas ações, as reações de
vossa memória, vossa experiência, vosso saber, vossa crença. Estais reagindo a tudo
isso. Não é exato? Se digo que há necessidade de uma revolução fundamental, reagis
imediatamente. Haveis de contestar à palavra "revolução", se tendes bons
"investimentos" (vantagens) — espirituais ou de outra natureza. Vossa reação, pois,
depende de vosso saber, de vossas crenças, de vossa experiência. Isso é um fato bem
óbvio. Há várias formas de reação. Dizeis: "Devo ser fraternal, devo cooperar, devo ser
cordial, devo ser bondoso", etc. Que é isso? Só reações; mas a reação fundamental do
processo do pensamento é um processo de isolamento.
(...) Como já apreciamos antes, esse processo só serve para fortalecer o "eu", a mente
— não importando que esse "eu" seja "alto" ou "baixo". Todas as nossas religiões,
todas as nossas sanções sociais, todas as nossas leis, existem para o amparo do
indivíduo, do "eu" individual, da ação separatista; e, do lado oposto, temos o estado
totalitário. Se penetrardes mais fundo no inconsciente, vereis que lá também está em
funcionamento o mesmo processo. Lá somos o coletivo, influenciado pelo ambiente,
pelo clima, sociedade, pai, mãe, avô. Lá também existe o desejo de impor, de dominar,
como indivíduo, como "eu".
Nessas condições, não é a função da mente, como a conhecemos e como funcionamos
em cada dia, um processo de isolamento? Não estais em busca da salvação individual?
Haveis de ser alguém no futuro; ainda nesta vida, haveis de ser um grande homem,
um grande escritor. Toda a nossa tendência é para estarmos separados. Pode a mente
fazer alguma coisa mais do que isso? É possível a mente não pensar de maneira
separativa, de maneira egocêntrica, fragmentária? É impossível. Por esta razão,
rendemos culto à mente, a mente é sobremodo importante. Não é verdade que
qualquer pessoa que possui um bocadinho de sagacidade, um bocadinho de
vivacidade, um pouquinho de ilustração e saber, logo se torna muito importante na
sociedade? Sabeis quanto venerais os homens que são intelectualmente superiores, os
advogados, os professores, os oradores, os bons escritores, os grandes explicadores e
expositores! Não é verdade? Tendes cultivado o intelecto e a mente.
A função da mente é existir isolada; de outra maneira, vossa mente não existe. Depois
de cultivarmos este processo durante séculos, vemos que é impossível cooperar;
economicamente e religiosamente, só somos empurrados, compelidos, tangidos pela
autoridade, pelo medo. Se tal é a situação de fato, não apenas conscientemente, mas
também nos níveis mais profundos, em nossos motivos, nossas intenções, nossas
ocupações, como é possível qualquer cooperação? Como podemos unir-nos
inteligentemente, para fazer alguma coisa? Sendo isso quase impossível, as religiões e
os partidos sociais organizados forçam o indivíduo a certas formas de disciplina.
Torna-se então obrigatória a disciplina em vista a união e a cooperação.
Assim, enquanto não compreendermos como transcender esse pensar separativo, esse
processo de exaltação do "eu" e da mente, quer sob forma coletiva, quer sob forma
individual, não teremos paz; teremos constante conflitos e guerras. Pois bem, o nosso
problema consiste em descobrir a maneira de dissolver, de eliminar o processo
separativo do pensamento. Pode o pensamento destruir o "eu" — sendo o pensamento
processo de verbalização e de certas reações? O pensamento não passa de reação; o
pensamento não é criador; é apenas a expressão verbal da criação, a que chamamos
pensamento. Pode esse pensamento por fim a si mesmo?... O pensamento está
forçando, impelindo, disciplinando a si mesmo para ser alguma coisa ou para não ser
alguma coisa. Não é isso um processo de isolamento? Logo, não é a inteligência
integrada, capaz de funcionar como um todo e da qual, tão somente, pode provir a
cooperação.
(...) Como chegareis a colocar fim ao pensamento? Ou melhor, como chegará o
pensamento ao seu término? Refiro-me ao pensamento que é isolado, fragmentário e
parcial. De que maneira ireis proceder? A disciplina o destruirá? Aquilo a que chamais
disciplina o destruirá? É bem evidente que não conseguistes tal resultado em todos
estes longos anos; do contrário, não estaríeis aqui. Cumpre-vos examinar o processo
do disciplinamento, o qual é apenas um processo de pensamento, em que há sujeição,
controle, dominação — tudo atingindo o inconsciente. Este irá se impor mais tarde, ao
ficardes mais velho. Tendo tentado a disciplina por tanto tempo, inutilmente, deveis
ter reconhecido que a disciplina não é o processo capaz de destruir o "eu". O "eu" não
pode ser destruído pela disciplina, porque a disciplina é um processo de fortalecimento
do "eu". Entretanto, todas as vossas religiões a defendem: todas as meditações, todas
as vossas asserções estão baseadas nisso. O saber o destruirá? A crença o destruirá?
Por outras palavras, tudo o que estamos fazendo presentemente, todas as atividades
a que estamos entregues com o fim de desarraigar o "eu", darão tal resultado? Tudo
isso, fundamentalmente, não é um esforço vão, dentro de um processo de
pensamento, um processo de isolamento, um processo de reação? Que fazeis, ao
reconhecer, fundamentalmente, que o processo do pensamento não pode por fim a si
mesmo?... Compreendeis, então, que toda reação é condicionada, e que, mediante
condicionamento, não haverá liberdade, nem no começo, nem no fim. A liberdade está
sempre no começo, e não no fim.
(...) Vemos os caminhos do intelecto: não vemos o caminho do amor. O caminho do
amor não pode ser encontrado pelo intelecto. O intelecto, com todas as suas
ramificações, com todos os seus desejos, ambições, empenhos, tem de cessar, para
que o verdadeiro amor venha à existência. Não sabeis que, quando amais, cooperais,
não estais pensando em vós mesmos? Essa é a mais alta forma de inteligência — não
quando sois amado como uma entidade superior ou quando vos encontrais em boa
situação, — o que nada é senão medo. Onde houver direitos adquiridos, não pode
haver amor; só há o processo de exploração, que culmina no temor. O amor só pode
começar a existir, quando a mente não existe. Por conseguinte, cumpre-vos
compreender todo o processo da mente, o funcionamento da mente. Só então podereis
descobrir quando se realizará a revolução fundamental... Só então é possível descobrir
o que é Deus, o que é a verdade. Ora, desejamos achar a verdade por meio do
intelecto, por meio da imitação — o que é idolatria, quer os ídolos sejam feitos pela
mão, quer pela mente. Só quando, pela compreensão, abandonais completamente a
estrutura total do "eu", só então vem aquilo que é eterno, atemporal, imensurável;
não podeis ir até ele; ele vem a vós.
Jiddu Krishnamurti
8 de maio de 2013
Toda busca de felicidade é miséria.
...Pergunta: Uma vez que tenha decidido encontrar a Realidade, o que farei depois?
Mararaj: Depende de seu temperamento. Se você for sério, qualquer caminho que escolher o levará a sua meta. É a seriedade o fator decisivo.
P: E o que me amadurecerá? Necessito de experiência?
M: Você já teve toda a experiência de que necessita. Você não precisa acumular mais, em vez disto você deverá ir além da experiência. Qualquer esforço que fizer, qualquer método que seguir, meramente gerará mais experiência, mas não o levará além. Nem a leitura de livros o ajudará. Eles enriquecerão sua mente, mas a pessoa que você é permanecerá intacta. Se esperar qualquer benefício de sua busca material, mental ou espiritual, você errará o alvo. A verdade não dá nenhuma vantagem. Não lhe dá um status mais elevado, nenhum poder sobre os outros; tudo o que você obtém é a verdade e a liberdade do falso.
P: Seguramente, a verdade me dará o poder para ajudar outros.
M: Isto é mera imaginação, de qualquer forma nobre! Na verdade, você não ajuda outros porque não há outros. Você divide as pessoas em nobres e ignóbeis e você pede ao nobre que ajude o ignóbil. Você separa, avalia, julga e condena – em nome da verdade você a destrói. Seu próprio desejo de formular a verdade a nega, porque ela não pode ser contida em palavras. A verdade só pode ser expressa pela negação do falso – em ação. Para isto você deve ver o falso como falso e rejeitá-lo. A renúncia do falso é libertadora e dá energia. Abre o caminho para a perfeição.
P: Quando saberei que descobri a verdade?
M: Quando a ideia “isto é verdadeiro”, “aquilo é verdadeiro”, não surgir. A verdade não afirma a si mesma, ela está na visão do falso como falso e em rejeitá-lo. É inútil buscar a verdade quando a mente estiver cega ao falso. Deverá ser purificada completamente do falso antes que a verdade possa despontar em você.
P: Mas o que é falso?
M: Certamente, o que não tem nenhum ser é falso.
P: O que você quer dizer por não ter nenhum ser? O falso existe, duro como um prego.
M: O que se contradiz não tem ser. Ou só o tem momentaneamente, o que vêm a ser o mesmo. Pois o que não tem um princípio e um fim não tem nenhum meio. É um oco. Só tem um nome e uma forma dados pela mente, mas não tem nem substância nem essência.
P: Se tudo que passar não tem ser, então o universo não terá nenhum ser tampouco.
M: Quem o negou? Certamente, o universo não tem ser.
P: O que tem?
M:Aquilo que não depende de nada para sua existência, que não surge quando surge o universo nem se põe quando o universo se põe, que não necessita de qualquer prova, mas dá realidade a tudo que toca. A natureza do falso é parecer real por um momento. Pode-se dizer que a verdade torna-se o pai do falso. Mas o falso está limitado no tempo e no espaço e é produzido pelas circunstâncias.
P: Como me liberto do falso e obtenho o real?
M: Com que propósito?
P: Para viver uma vida melhor, mais satisfatória, integrada e feliz.
M: O que quer que seja concebido pela mente deve ser falso, pois é obrigado a ser relativo e limitado. O real é inconcebível e não pode ser aparelhado para um propósito. Deve ser desejado por si mesmo.
P: Como posso querer o inconcebível?
M: O que mais é digno de desejo? Concordo, o real não pode ser desejado como uma coisa é desejada. Mas você pode ver o irreal como irreal e descartá-lo. É o descarte do falso que abre o caminho para o verdadeiro.
P: Entendo, mas como se parece na vida diária atual?
M: O interesse próprio e o egocentrismo são os pontos focais do falso. Sua vida diária vibra entre o desejo e o medo. Observe-a atentamente e verá como a mente assume inumeráveis nomes e formas, como um rio espumante entre as pedras. Siga o motivo egoísta em cada ação e olhe-o atentamente até que se dissolva.
P: Para viver se deve cuidar de si mesmo, deve-se ganhar dinheiro para si mesmo.
M: Não necessita ganhá-lo para si mesmo, mas pode ter que ganhá-lo para uma esposa ou um filho. Pode ser que deva seguir trabalhando para os outros. Mesmo só manter-se vivo pode ser um sacrifício. Não há nenhuma necessidade de ser egoísta. Descarte todo motivo egoísta logo que o veja e não necessitará buscar a verdade; a verdade o encontrará.
P: Há um mínimo de necessidades.
M: Não foram satisfeitas desde que você foi concebido? Abandone a escravidão do egoísmo e seja o que é – inteligência e amor em ação.
P: Mas se deve sobreviver!
M: Você não pode contribuir para a sobrevivência! Seu ser real é eterno e está além do nascimento e da morte. E o corpo sobreviverá enquanto for necessário. Não é importante uma vida longa. Uma vida plena é melhor que uma longa vida.
P: Quem vai dizer que é uma vida plena? Depende de meu fundo cultural.
M: Se você buscar a realidade, deverá se libertar de todos os antecedentes, de todas as culturas, de todos os padrões de pensamento e sentimento. Mesmo a ideia de ser um homem ou uma mulher, ou mesmo humano, deve ser descartada. O oceano da vida contém tudo, não apenas os humanos. Assim, em primeiro lugar abandone a auto-identificação, pare de pensar de si mesmo como assim e assado, esse e aquele, isto ou aquilo.
Abandone todo interesse próprio, não se preocupe com seu bem-estar, material ou espiritual, abandone todo desejo grosseiro ou sutil, deixe de pensar em avanços de qualquer tipo. Você é completo aqui e agora, não necessita absolutamente de nada. Isto não quer dizer que deva ser tolo e imprudente, imprevidente ou indiferente; apenas a ansiedade básica por si mesmo deve cessar. Você necessita algum alimento, roupa e abrigo para você e para os seus, mas este desejo não cria problemas enquanto a ambição não passar por necessidade. Viva em sintonia com as coisas como elas são e não como são imaginadas.
P: O que sou eu se não um ser humano?
M: Aquilo que o faz pensar que você é humano não é humano. Não é senão um ponto de consciência sem dimensão, um nada consciente; tudo o que pode dizer sobre si mesmo é: “eu sou”. Você é puro ser – Consciência – bem-aventurança. Compreenda que este é o fim de toda busca. Você chega a ele quando vir que tudo o que pensa sobre si mesmo é mera imaginação, é permanecer distante, na pura consciência do transitório como transitório, do imaginário como imaginário, do irreal como irreal. Isto não é de forma alguma difícil, mas o desapego é necessário. É o apego ao falso que faz tão difícil a visão do verdadeiro. Uma vez que entenda que o falso precisa de tempo e que necessitar de tempo é falso, você estará mais próximo da Realidade, a qual é eterna, sempre no agora. A eternidade no tempo é mera repetição, como o movimento de um relógio. Flui do passado para o futuro interminavelmente, uma perpetuidade vazia. A Realidade é que faz o presente tão vivo, tão diferente do passado e do futuro, os quais são meramente mentais. Se você precisar de tempo para alcançar algo, deverá ser falso. O real está sempre com você; não precisa esperar para ser o que você é. Apenas não deve permitir que sua mente saia de você mesmo na busca. Quando quiser algo, pergunte a si mesmo: realmente necessito disto? E, se a resposta for não, então meramente o abandone.
P: Não devo ser feliz? Posso não necessitar de algo, mas se puder me fazer feliz não deverei pegá-lo?
M: Nada pode lhe fazer feliz mais do que é. Toda busca de felicidade é miséria e leva a mais miséria. A única felicidade digna do nome é a felicidade natural de ser consciente.
P: Quer dizer que devo abandonar toda ideia de uma vida ativa?
M: Não, de forma alguma. Haverá casamento, filhos, ganhar dinheiro para manter a família; tudo isto acontecerá no curso natural dos eventos porque o destino deve cumprir-se; você passará por isto sem resistência, confrontando as tarefas como vierem – interessada e completamente –, nas pequenas e grandes coisas. Mas a atitude geral será de carinhoso desapego, enorme boa vontade, sem esperar retorno, dando constantemente sem nada pedir. No casamento, você não é nem o marido nem a esposa; você é o amor entre os dois. Você é a clareza e a bondade que tornam tudo ordenado e feliz. Pode parecer vago para você, mas, se pensar um pouco, descobrirá que o místico é o mais prático, pois faz com que sua vida seja criativamente feliz. Sua consciência é elevada a uma dimensão superior, da qual se vê tudo muito mais claramente e com maior intensidade. Você compreenderá que a pessoa que você se tornou no nascimento, e que cessará de ser na morte, é temporária e falsa. Você não é a pessoa sensual, emocional e intelectual, oprimida por desejos e temores. Descubra seu ser real. O “que sou eu?” é a questão fundamental de toda filosofia e psicologia. Vá profundamente para dentro dela.
– Nisargadatta Maharaj - Do livro "Eu Sou Aquilo"
3 de abril de 2013
Existe algo além desse "eu" ?
Jiddu Krishnamurti
Se constantemente, estiverem procurando, interrogando, duvidando, então surge o discernimento no qual há iluminação.
(...)
Todos podem ser levados à dúvida por outrem, a duvidar do próprio conhecimento, da própria compreensão que houverem colhido, por meio do sofrimento de vocês. Porém, a dúvida que não for oriunda de vocês mesmos, não purificará. Somente purificará as suas crenças estreitas, só dará estabilidade à sua estreita forma de culto à personalidades, se você se apegarem a algo que, de momento, é um conforto e, portanto, uma traição à verdade. Mas, se houverem convidado a dúvida na plenitude do coração de vocês para colocarem à prova essa compreensão da verdade da qual colheram um vislumbre, então, duvidando da própria dúvida, o que permanecer será puro, absoluto e final.
E a fim de que possam compreender o absoluto e o eterno, devem ter experimentado a sombra da dúvida lançada sobre o entendimento de vocês. E, como a maioria das pessoas temem a dúvida, pensam ser um crime, um pecado, expulsam a dúvida de suas mentes, acrescentando assim a sua estreiteza, a sua mesquinhez na adoração de personalidades, em seus abrigos que acalentam decadência e conforto.
Ao contrário, se convidarem a dúvida para entrar no coração e na mente de vocês e se acompanharem a dúvida, logicamente, por todos os seus caminhos, avenidas e sombras da mente e do coração e incansavelmente escutarem e examinarem todas as coisas, então, o que permanecer será do próprio conhecimento de vocês, e, portanto, o absoluto, o eterno.
(...)
Existe contradição de ideias, teorias, criadas pelas constantes afirmações dos dirigentes, a respeito do que é e do que não é.
Alguns deles dizem que Deus existe, outros que não existe. Alguns sustentam que o indivíduo vive após a morte; os espíritas proclamam haver provado que existe continuação da mente individual; — outros dizem que só existe o aniquilamento. Alguns acreditam na reencarnação, outros a negam.
Empilha-se teoria sobre teoria, incerteza sobre incerteza, afirmação sobre afirmação. O resultado de tudo isto é que o indivíduo fica integralmente incerto; ou então, o indivíduo fica tão cercado, tão limitado por conceitos e formas de crenças particulares, que recusa ponderar sobre o que realmente é verdadeiro. Ou estão incertos, confusos, ou estão certos nas suas crenças e na forma particular de pensamento. Para o homem que está verdadeiramente incerto, há esperança; para o homem, porém, que está incrustado na crença, naquilo que ele chama intuição, há pouquíssima esperança, pois fechou a porta à incerteza, à dúvida, e acha repouso e consolação na segurança.
Imagino que a maioria de vocês estejam incertos, confusos, portanto, profundamente desejosos de compreender o que é a realidade, o que é a verdade.
A incerteza engendra o medo, o qual dá nascimento ao desânimo e à ansiedade. Depois consciente ou inconsciente, começa o indivíduo a fugir desses temores e suas consequências.
Observem os seus pensamentos, e surpreenderão este processo em operação. À medida que anseiam por se assegurarem do propósito da vida, do além, de Deus, começam a se aperceber dos seus desejos, por meio dessa investigação, sobrevém a dúvida, a incerteza. Depois essa mesma dúvida e incerteza criam o medo, o isolamento, a vacuidade ao redor e em vocês mesmos.
Isto é um estado necessário para a mente, porque então ela deseja experimentar e compreender a realidade.
Porém, o sofrimento implícito neste processo é tão grande que a mente procura abrigo e cria para si mesma o que ela chama intuições, conceitos, crenças e agarra-se a essas coisas desesperadamente, com esperança de encontrar certeza. Este processo de fuga da atualidade, da incerteza, tem de necessariamente conduzir à ilusão, à anormalidade, às neuroses e desequilíbrio. Mesmo que aceitem essas instituições , essas crenças, e nelas tomem abrigo, se, apesar disso, se examinarem a si mesmos com profundidade, verificarão que existe ainda o medo, a incerteza continua.
Este estado vital de incerteza, isento do desejo de a ele escapar, é o início de toda a verdadeira busca da realidade. O que é que realmente vocês estão procurando? Só pode haver um estado de compreensão, uma percepção direta daquilo que é, da atualidade, pois, a compreensão não é um fim, um objetivo a ser atingido. O discernimento do processo efetivo do "eu", do seu vir-a-ser e de sua verdadeira dissipação é o começo e o fim da busca.
Para entender aquilo que é, deverá a compreensão principiar por si mesmos. O mundo é uma série de processos indefinidos, variados, que não podem ser plenamente compreendidos, pois cada força é única em si mesma e não pode ser verdadeiramente perceptível em sua totalidade. O processo integral da vida, da existência no mundo, depende inteiramente de forças únicas e só poderão compreender por meio desse processo que se acha focalizado no indivíduo sob a forma de consciência. É possível alcançarem superficialmente o significado de outros processos; porém, para compreender a vida plenamente, necessitam entender o processo que opera em vocês, sob a forma de consciência.
Se cada qual de vocês, profunda e significativamente, compreender esse processo que opera sob a forma de consciência, então nenhum de vocês lutará para si mesmo, existirá para si nem se preocupará consigo. Presentemente, cada qual preocupa-se consigo próprio, lutando para si e agindo antissocialmente, por não se compreender a si mesmo, plenamente; e é somente pela compreensão de nossa força única como consciência, que há a possibilidade de compreender o todo. Quando plenamente discernirem o processo do "eu", cessarão de ser uma vítima que luta sozinha no vácuo.
Esta força é única, e em seu próprio desenvolvimento torna-se consciência, de onde surge a individualidade. Por favor, não decorem esta frase; porém, antes, pensem a respeito, e assim verificarão que esta força é única para cada um e, mediante seu desenvolvimento auto-ativo, torna-se consciente. O que é esta consciência? Ela não pode ter localização alguma, e tão pouco pode ela dividir-se em superior e inferior. A consciência compõe-se de múltiplas camadas de lembranças, de ignorância, de limitações, de tendências e anseios. Ela é discernimento e tem o poder de compreender os valores últimos. É o que nós chamamos individualidade. E não perguntem: "nada mais existe além disto?" Isso será discernido, quando o processo do "eu" houver terminado. O que importa é se conhecer a si mesmo, e não — saber o que está para além.
Vocês apenas procuram recompensa para os seus esforços, algo a que possam se apegar no presente desespero, incerteza e temor de vocês, que evidenciam ao perguntar: existe algo além desse "eu"?
Ora, a ação é esse atrito, essa tensão que se dá entre a ignorância, o anseio e o objeto de seu desejo.
Esta ação sustenta-se a si própria e é isso que dá continuidade ao processo do "eu". Portanto, a ignorância, pelas suas atividades por si mesma sustentadas, perpetua-se sob a forma de limitações por ele próprio criadas, impedem as verdadeiras relações com os outros indivíduos, com a sociedade. Estas limitações isolam o indivíduo, e por isso surge o medo constantemente. Esta ignorância, no que a nós diz respeito, cria sempre o medo, com suas múltiplas ilusões, e daí decorre a busca da união com o eu superior, com qualquer inteligência super-humana, com Deus, e assim por diante. Deste isolamento provém a continuação de sistemas, de métodos de conduta, de disciplina.
Pela dissolução destas limitações, vocês começam a discernir que a ignorância não tem princípio, que se mantém a si própria pelas suas próprias atividades, e que este processo só pode finalizar pelo reto esforço e pela reta compreensão. Vocês podem colocar isto à prova, mediante a experiência e discernir, por si mesmos, que o processo da ignorância é isento de começo e isento de terminação. Se a mente-coração estiver presa por qualquer preconceito particular, sua própria ação tem de criar outras limitações, e, portanto, produzirá maior tristeza e confusão. Assim, perpetua ela sua própria ignorância e suas próprias tristezas.
Se vocês se tornarem plenamente conhecedores desta atualidade, mediante a experiência, então, se dará a compreensão do que seja o "eu", e o esforço reto poderá lhe colocar fim.
Este esforço é o percebimento no qual não há seleção ou conflito de opostos, uma parte da consciência vencendo a outra parte, um preconceito sobrepujando a outro. Isto exige um pensamento vigoroso, que libertará a mente de temores e limitações. Somente então haverá o permanente, o real.
Pelo simples afirmar que toda a existência está condicionada, jamais descobrirão se existe um estado que possa não ser condicionado. Ao se tornar integralmente apercebido do estado condicionado, cada um começará a compreender a libertação que vem através da cessação do medo.
Krishnamurti
1 de janeiro de 2013
EU ACREDITAVA ...
Jeff Foster
"Eu costumava “ACREDITAR”...
que estava iluminado
e que os outros não estavam.
QUÃO IRÔNICO.
Eu costumava “ACREDITAR”...
que "não havia ninguém" para se iluminar
que todos os ensinamentos espirituais eram falsos e dualistas.
Que a “não-dualidade" era o único e verdadeiro ensinamento.
QUÃO ARROGANTE.
Eu costumava “ACREDITAR”...
que "não havia ninguém" que pudesse despertar.
"Nada para fazer, nem para aonde ir", era o meu novo "mantra espiritual".
QUÃO SIMPLISTA.
Eu costumava “ACREDITAR”...
que não havia tempo nem espaço
e nenhuma possibilidade de mudança qualquer.
QUÃO NIILISTA.
Eu costumava “ACREDITAR”...
Que não havia um "eu" que acreditasse em tal coisa.
*abro um parênteses: (A CRENÇA DA NÃO CRENÇA???)
QUÃO INOCENTE...
Despertar não significa se fixar rigidamente em determinado "sistema", e ficar regurgitando constantemente para os outros ouvirem.
*abro outro parênteses: (PALAVRAS MORTAS???)
Despertar significa olhar claramente além da crença.
Significa encarar a vida sem medo, sem tentar se auto-proteger.
Significa mergulhar na profunda aceitação de cada momento.
Significa deixar para trás todas as idéias acerca de si mesmo.
INCLUINDO A IDÉIA DE QUE SE PODE CHEGAR AO FIM DO CAMINHO.
Nós nunca chegamos ao fim
nós somos apenas Agora
Este é o grande gume da faca do despertar.
É tão fácil cair. Eu mesmo caí muitas vezes. Eu vi a queda dos outros e sigo vendo-os cair.
A GRANDE HUMILDADE ESTÁ EM RECONHECER QUE NÃO SABEMOS NADA.
E que o despertar jamais ocorreu a "mim".
Jeff Foster
17 de fevereiro de 2012
Meher Baba
A Existência é a Substância, a Vida é a Sombra.
A Existência é eterna, enquato que a vida é perecível. Comparativamente, a Existência é o que seu corpo é para o homem e a vida é como a roupa que cobre o corpo. O mesmo corpo muda de roupa de acordo com as estações, com o tempo e as circunstâncias, da mesma forma que a Existência eterna e una sempre está lá através de todos os inúmeros aspectos variados da vida.
Envolta além do reconhecimento pelo manto da vida com suas dobras e cores variadas está a Existência imutável. É o traje da vida com seus véus - o véu da mente, da energia e das formas grosseiras que "encobrem" e se sobrepõe sobre a Existência, apresentando a Existência eterna, indivisível e imutável como transiente, diversificada e em constante mudança.A Existência é onipresente e é a essência fundamental que sublinha todas as coisas animadas ou inanimadas, reais ou irreais, variadas em espécie ou uniforme em formas, coletivas ou individuais, abstratas ou substanciais.
Na eternidade da Existência não existe o tempo. Não há passado nem futuro, apenas o presente eterno. Na eternidade nada jamais aconteceu e nada jamais acontecerá. Tudo está acontecendo no interminável AGORA.
A Existência é Deus, enquanto que a vida é ilusão.
A Existência é Realidade, enquanto que a vida é imaginação.
A Existência é eterna, enquanto que a vida é efêmera.
A Existência é imutável, enquanto que a vida está sempre mudando.
A Existência é liberdade, enquanto que a vida é um aprisionador.
Existência é indivisível, enquanto que a vida é múltipla.
Existência é imperceptível, enquanto que a vida é enganosa.
A Existência é independente, enquanto que a vida é dependente da mente, da energia e das formas brutas.
A Existência é, enquanto que a vida parece ser.
A Existência, portanto, não é a vida.
O nascimento e a morte não marcam o início ou o fim da vida. Considerando que as diversas fases e estados da vida que constituem os chamados nascimentos e mortes são regidos pelas leis da evolução e da reencarnação, a vida vem a existir uma única vez, com o advento dos primeiros raios pálidos da consciência limitada, e sucumbe à morte apenas uma vez ao alcançar a Consciência Plena da Existência Infinita.
A Existência, onisciente, onipotente, Deus onipresente, está além de causa e efeito, além do tempo e do espaço, além de todas as ações.
A Existência toca a tudo, todas as coisas e todas as sombras. Nada jamais pode tocar a Existência. Mesmo o próprio fato de seu ser não tocar a Existência.
Para perceber a Existência é preciso despreender-se da vida. É a vida que dá limitações ao Ser ilimitado. A vida do ser limitado é sustentada pela mente que cria impressões, pela energia que alimenta o impulso para acumular e dissipar essas impressões através de expressões, e por formas grosseiras e corpos que funcionam como instrumentos através dos quais essas impressões são gastas, reforçadas e, eventualmente, exauridas através de ações.
A vida está densamente associada às ações. A vida é vivida através de ações. A vida é valorizada através de ações. A sobrevivência da vida depende de ações. As ações são o que faz a vida ser conhecida - ações opostas em natureza, ações afirmativas e negativas, ações construtivas e destrutivas. Portanto, para deixar a vida sucumbir até sua morte definitiva é deixar todas as ações terminarem. Quando as ações terminam completamente, a vida do ser limitado espontaneamente experimenta-se como a Existência do Ser ilimitado.
A Existência ao ser realizada (percebida e atingida), a evolução e a involução da consciência estão completas, a ilusão desaparece e a lei da reencarnação não pode mais aprisionar.
Simplesmente desistir de cometer ações nunca colocará um fim nas ações. Seria simplesmente significar pôr em ação uma outra ação - a da inatividade.
Escapar das ações não é o remédio para a erradicação das ações. Pelo contrário, isso daria margem para o ser limitado ficar mais envolvido no próprio ato de escapar, criando assim mais ações.
As ações, tanto as boas quanto as ruins, são como nós no emaranhado da linha da vida. Quanto mais persistentes os esforços para desatar os nós da ação, mais firmes tornam-se os nós e maior o emaranhamento.
Somente ações podem anular ações, da mesma maneira que o veneno pode neutralizar os efeitos do veneno. Um espinho profundamente enraizado pode ser extraído ao usarmos um outro espinho ou qualquer objeto pontiagudo semelhante a um espinho, como uma agulha, utilizada com habilidade e precaução. Da mesma forma, as ações são totalmente arrancadas por outras ações, quando são cometidas por algum agente de ativação que não seja o 'ser'.
Karma yoga, dnyan yoga, raj yoga e bhakti yoga servem o propósito de serem sinais importantes no caminho da Verdade, orientando o buscador para a meta da Existência eterna. Mas a vida alimentada por ações, segura tão apertado o aspirante que mesmo com a ajuda desses sinais inspiradores, ele falha em ser guiado na direção certa. Enquanto o Ser é vinculado por ações, o aspirante ou mesmo o peregrino no caminho da Verdade, certamente irá se extraviar pelo auto-engano.
Ao longo de todas as eras, sadhus e buscadores, sábios e santos, Munis e monges, tapasavis e Sanyasis, yogis, Sufis e talibs têm lutado durante suas vidas inteiras, passando por dificuldades incalculáveis em seus esforços para se desembaraçarem do emaranhado de ações e perceberem a Existência eterna ao sobrepujarem a vida.
Eles falham em suas tentativas porque quanto mais lutam com seu 'ser', mais firmemente seu ser é agarrado pela vida, por meio de ações intensificadas pelas austeridades e penitências, reclusões e peregrinações, meditação e concentração, declarações assertivas e contemplação silenciosa, por uma intensa atividade e inatividade, pelo silêncio e pela verbosidade, por japas e tapas, e por todos os tipos de yogas e chillas.
A emancipação das garras da vida e a liberdade dos labirintos das ações são possíveis para todos e alcançadas por poucos, quando um Mestre Perfeito, Sadguru ou Qutub é abordado e sua graça e orientação são invocadas. O conselho invariável do Mestre Perfeito é a rendição completa a ele. Os poucos que se entregam por completo - mente, corpo, bens, de modo que com sua entrega total eles entregem também conscientemente seu próprio "ser" ao Mestre Perfeito - ainda mantêm seu próprio ser que permanece consciente para cometer ações que são agora ativadas apenas pelos ditames do Mestre.
Tais ações, após a entrega do 'ser', não são mais ações da própria pessoa. Assim, essas ações são capazes de arrancar todas as outras ações que alimentam e sustentam a vida. A vida torna-se então gradualmente sem vida e, eventualmente, sucumbe pela graça do Mestre Perfeito, à sua morte final. A vida, que uma vez impediu o aspirante perseverante de realizar a Existência perpétua, já não pode operar seu próprio engano.
Eu enfatizei no passado, eu lhes digo agora e repetirei era após era para todo o sempre: para vocês deixarem cair seu manto da vida e perceberem a Existência que é eternamente sua.
Para realizar esta verdade da Existência imutável, indivisível, que tudo permeia, a maneira mais simples é se entregar a mim completamente, tão completamente que você nem sequer fique consciente de sua rendição, consciente apenas de me obedecer e agir como e quando eu lhe ordenar.
Se você busca viver eternamente, então implore pela morte de seu ser enganoso nas mãos da entrega total a mim. Esse yoga é a essência de todos os Yogas em um.
24 de janeiro de 2012
Meher Baba
O Caminho do Amor
Deus como Verdade
Em última análise, cada um e cada coisa é Deus. E esse Deus como a verdade pode ser realizado por meio de um Guru ou de um Mestre. Geralmente, neste país, o Vedantismo está associado a esta realização do Altíssimo. Porém, agora não estou preocupado com o Vedantismo, com o Sufismo ou qualquer outro "ismo", mas somente com Deus como a Verdade, em como Ele entra em nossa experiência após o desaparecimento da mente-ego limitada e limitante. Deus é uma Verdade inabalável e eterna. Ele se comunica e revela a Si memso para aqueles que amam-No, que buscam-No e que se entregam a Ele, tanto em seu aspecto impessoal que está além de forma, nome e tempo, ou em Seu aspecto pessoal. Ele é mais facilmente acessível ao homem comum através dos homens-Deus, que sempre vêm e sempre virão para transmitir luz e verdade para a sofrida humanidade, a qual em sua maioria está tateando no escuro.
Por causa de sua completa união com Deus, o homem-Deus desfruta eternamente do estado "eu-sou-Deus", que também corresponde ao termo Vedanta Aham Brahmasmi e ao termo Sufi Anal-Haq ou à declaração de Cristo: "Eu e meu Pai somos um." Na experiência dos Sufis, Anal-Haq, ou o estado "eu-sou-Deus", é a culminação de Hama-Oost, que significa que tudo é Deus e nada mais existe. E uma vez que nesta abordagem só “Deus sem um segundo" é contemplado, não há espaço para o amor por Deus ou o anseio por Deus. A alma tem a convicção intelectual de que ela é Deus. Mas para realmente experimentar esse estado, ela passa por uma intensa concentração ou meditação sobre esse pensamento. "Eu não sou o corpo, não sou a mente, não sou isto nem aquilo, eu sou Deus." A alma, em seguida, experimenta através da meditação aquilo que ela assumiu ser ela mesma. Mas essa maneira de experimentar Deus não é apenas difícil, mas é também seca.
O Caminho é mais realista e alegre quando há um amplo jogo de amor e devoção a Deus, quando postula a separação temporária e aparente de Deus e o desejo de unir-se a Ele. Tal separação aparente e provisória de Deus é afirmada pela alma nas duas concepções da tradição Sufi: Hamaaz Oost, que significa que tudo é de Deus e Hama Doost, que significa que tudo é para o Amado Deus. Em ambas as concepções a alma percebe que sua separação de Deus é apenas temporária e aparente e ela busca restaurar essa unidade perdida com Deus através de um intenso amor que consome toda a dualidade. A única diferença entre esses dois estados é que enquanto a alma, no estado de HamaDoost, contenta-se com a Vontade de Deus como o Bem-Amado, no estado de Hama az Oost, a alma não anseia por nada além da união com Deus.
Sendo que a alma, que está em aprisionamento, pode ser resgatada somente através do Amor Divino, até mesmo os Mestres Perfeitos, os quais alcançam a completa unidade com Deus e experimentam-no como a única Realidade, muitas vezes, aparentemente, entram no domínio da dualidade e falam a linguagem do amor, da adoração e do serviço a Deus em Seu Ser não-manifesto bem como em todas as inumeráveis formas através das quais Ele se manifesta.
O Amor Divino, como cantado por santos hindus como Tukaram, como ensinado por místicos Cristãos como São Francisco, como pregado por santos Zoroastristas comoAzer Kaivan e tornado imortal por poetas sufis como Hafiz, nunca abriga nenhum pensamento autocentrado. Ele consome todos os desejos e fraquezas que nutrem a servidão e a ilusão da dualidade. Por fim, ele une a alma a Deus, trazendo assim para a alma o verdadeiro autoconhecimento, a felicidade duradoura, a paz inatacável, a compreensão sem fronteiras e o poder ilimitado. Sejam vocês os herdeiros dessa vida eterna que vem para aqueles que buscam!
Por causa de sua completa união com Deus, o homem-Deus desfruta eternamente do estado "eu-sou-Deus", que também corresponde ao termo Vedanta Aham Brahmasmi e ao termo Sufi Anal-Haq ou à declaração de Cristo: "Eu e meu Pai somos um." Na experiência dos Sufis, Anal-Haq, ou o estado "eu-sou-Deus", é a culminação de Hama-Oost, que significa que tudo é Deus e nada mais existe. E uma vez que nesta abordagem só “Deus sem um segundo" é contemplado, não há espaço para o amor por Deus ou o anseio por Deus. A alma tem a convicção intelectual de que ela é Deus. Mas para realmente experimentar esse estado, ela passa por uma intensa concentração ou meditação sobre esse pensamento. "Eu não sou o corpo, não sou a mente, não sou isto nem aquilo, eu sou Deus." A alma, em seguida, experimenta através da meditação aquilo que ela assumiu ser ela mesma. Mas essa maneira de experimentar Deus não é apenas difícil, mas é também seca.
O Caminho é mais realista e alegre quando há um amplo jogo de amor e devoção a Deus, quando postula a separação temporária e aparente de Deus e o desejo de unir-se a Ele. Tal separação aparente e provisória de Deus é afirmada pela alma nas duas concepções da tradição Sufi: Hamaaz Oost, que significa que tudo é de Deus e Hama Doost, que significa que tudo é para o Amado Deus. Em ambas as concepções a alma percebe que sua separação de Deus é apenas temporária e aparente e ela busca restaurar essa unidade perdida com Deus através de um intenso amor que consome toda a dualidade. A única diferença entre esses dois estados é que enquanto a alma, no estado de HamaDoost, contenta-se com a Vontade de Deus como o Bem-Amado, no estado de Hama az Oost, a alma não anseia por nada além da união com Deus.
Sendo que a alma, que está em aprisionamento, pode ser resgatada somente através do Amor Divino, até mesmo os Mestres Perfeitos, os quais alcançam a completa unidade com Deus e experimentam-no como a única Realidade, muitas vezes, aparentemente, entram no domínio da dualidade e falam a linguagem do amor, da adoração e do serviço a Deus em Seu Ser não-manifesto bem como em todas as inumeráveis formas através das quais Ele se manifesta.
O Amor Divino, como cantado por santos hindus como Tukaram, como ensinado por místicos Cristãos como São Francisco, como pregado por santos Zoroastristas comoAzer Kaivan e tornado imortal por poetas sufis como Hafiz, nunca abriga nenhum pensamento autocentrado. Ele consome todos os desejos e fraquezas que nutrem a servidão e a ilusão da dualidade. Por fim, ele une a alma a Deus, trazendo assim para a alma o verdadeiro autoconhecimento, a felicidade duradoura, a paz inatacável, a compreensão sem fronteiras e o poder ilimitado. Sejam vocês os herdeiros dessa vida eterna que vem para aqueles que buscam!
Deus como a Bem-aventurança
Em todos os lugares, em todos os estilos de vida, o homem, sem exceção, tem sede de felicidade. Ele tenta saciá-la nas diversas seduções da vida sensual e nas muitas posses e conquistas que alimentam e agradam o ego, bem como também nas inumeráveis experiênciasque estimulam o intelecto, que excitam a mente, acalmam o coração ou energizam o espírito. De tudo isso, o que ele procura é a felicidade de diversos tipos. Mas ele procura-a no mundo da dualidade e nas sombras passageiras da Ilusão de Maya, a qual chamamos de universo. E ele descobre que a felicidade que consegue ali é tão passageira que quase desaparece no próprio momento da experiência. E depois que desaparece, o que resta é um vazio sem fundo que nenhuma multiplicação de experiências similares jamais poderá preencher completamente. Mas a verdadeira bem-aventurança só pode vir para alguém que tenha em suas mãos a coragem de se tornar livre de todo apego às formas, que por sua vez não são nada além de ilusões da dualidade. Só então ele pode ser unido com seu verdadeiro Amado, que é Deus como a Verdade eterna e permanente por trás de todas as formas, incluindo o que ele considera como sendo seu próprio corpo.
O infinito e insondável oceano da Bem-aventurança está dentro de todos. Não há nenhum indivíduo inteiramente desprovido de felicidade de alguma forma, pois não há nenhum indivíduo que esteja totalmente separado de Deus como o Oceano da Bem-aventurança. Cada tipo de prazer que ele já teve é em última instância um reflexo parcial e ilusório de Deus como Ananda (bem-aventurança). Mas o prazer que é procurado e experimentado na ignorância, finalmente aprisiona a alma numa continuação interminável da falsa vida do ego e deixa a alma exposta aos muitos sofrimentos da vida egóica. Os prazeres do mundo ilusório são comparáveis aos muitos rios de miragem que aparentemente derramam-se no oceano. A felicidade divina é semrpe nova, eterna, contínua e é infinitamente experimentada como a alegria autosustentável e infinita de Deus.
O infinito e insondável oceano da Bem-aventurança está dentro de todos. Não há nenhum indivíduo inteiramente desprovido de felicidade de alguma forma, pois não há nenhum indivíduo que esteja totalmente separado de Deus como o Oceano da Bem-aventurança. Cada tipo de prazer que ele já teve é em última instância um reflexo parcial e ilusório de Deus como Ananda (bem-aventurança). Mas o prazer que é procurado e experimentado na ignorância, finalmente aprisiona a alma numa continuação interminável da falsa vida do ego e deixa a alma exposta aos muitos sofrimentos da vida egóica. Os prazeres do mundo ilusório são comparáveis aos muitos rios de miragem que aparentemente derramam-se no oceano. A felicidade divina é semrpe nova, eterna, contínua e é infinitamente experimentada como a alegria autosustentável e infinita de Deus.
Unam-se ao seu verdadeiro Amado, o qual é Deus na forma de Ananda ou Bem-aventurança!
Deus
Deus
Na fase sub-humana, a consciência do falso ser ou do falso "eu", que é muito leve, oferece possibilidades de evolução. Na forma humana, a evolução da consciência é completada e a consciência torna-se plena. O amor entra em cena ativamente pela primeira vez. Quando o amor desempenha o papel de forma mais ativa e plena, o falso "eu" passa a ser cada vez e mais consumido. Eventualmente, quando o amor está em seu apogeu, o falso "eu" é totalmente consumido pelo amor, o que resulta na consumação do amante e do amor no altar do Amado. Nem o amante permanece no amor, nem o amor reina soberano sobre o amante: o objetivo é atingido. O Amado é supremo sobre seu ser: não há nada exceto o Amado: todo o resto é consumido.
A respeito de ser o Avatar
Quando digo que sou o Avatar, há alguns que se sentem felizes, alguns que se sentem chocados e muitos que, ao me ouvirem afirmar isso, consideram-me como um hipócrita, uma fraude, um egoísta supremo, ou simplesmente um louco. Se eu dissesse que cada um de vocês é um Avatar, alguns ficariam contentes e muitos considerariam uma blasfêmia ou uma piada. O fato é que sendo Deus Um, indivisível e estando igualmente em todos nós, não podemos ser nada mais além de um, porém é demais para a mente consciente da dualidade aceitar isso. No entanto, cada um de nós é o que o outro é. Sei que eu sou o Avatar em todos os sentidos da palavra e sei que cada um de vocês é um Avatar em um sentido ou outro. É um fato inalterável e universalmente reconhecido desde tempos imemoriais que Deus sabe tudo, Deus faz tudo e que nada acontece senão pela vontade de Deus. Portanto, é Deus que me faz dizer que eu sou o Avatar e que cada um de vocês é um Avatar. Novamente, é Ele que é alegrado através de alguns e que através de outros fica chocado. É Deus que age e é Deus que reage. É Ele quem zomba e aquele que responde. Ele é o Criador, o Produtor, o Ator e a Platéia na Sua própria peça Divina.
A respeito de manter silêncio*
Se você me perguntasse por que eu não falo, eu diria que não estou em silêncio e que eu falo mais eloquentemente através de gestos e da tábua do alfabeto. Se você me perguntasse por que eu não falo, eu diria que talvez por três razões: em primeiro lugar, sinto que através de todos vocês eu estou falando eternamente. Em segundo lugar, para aliviar o tédio de falar incessantemente através de suas formas eu mantenho silêncio em minha forma física pessoal. E em terceiro lugar, porque toda a conversa é em si conversa fiada. Palestras, mensagens, declarações, discursos de qualquer natureza, espirituais ou não, transmitidos através declarações ou escritos, são apenas conversa fiada quando não se age em conformidade ou se vive aquilo. Se você perguntar quando irei quebrar meu silêncio, direi que será quando eu quiser proferir a única Palavra real que foi falada no princípio sem começo, pois apenas essa Palavra é digna de ser proferida. O momento de quebrar o meu silêncio externo para proferir essa Palavra está muito próximo.
Meher Baba guardou silêncio por 44 anos.
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